A Reforma Tributária do Consumo não aplicará uma única lógica a todas as receitas do setor financeiro. A Lei Complementar nº 214/2025 criou um regime específico de IBS e CBS para operações cuja remuneração pode estar embutida em margens, spreads e fluxos financeiros — e a Lei Complementar nº 227/2026 ajustou pontos relevantes antes da entrada efetiva da CBS em 2027.
Para bancos, fintechs, seguradoras, instituições de pagamento e demais participantes do mercado, a mudança vai muito além da substituição de PIS, Cofins e ISS. Será necessário identificar a natureza de cada receita, aplicar bases e deduções próprias, sustentar créditos dos clientes e integrar dados contábeis e transacionais à nova Declaração dos Regimes Específicos, a DeRE.
Por que os serviços financeiros receberam um regime específico?
Em um IVA tradicional, o tributo costuma incidir sobre o valor cobrado em cada operação. Nos serviços financeiros, porém, parte da remuneração não aparece em uma tarifa isolada. Ela pode estar incorporada à diferença entre captação e aplicação de recursos, ao spread de crédito ou a outros resultados financeiros.
Por isso, o artigo 181 da LC nº 214/2025 determina que os serviços financeiros fiquem sujeitos a regime específico de IBS e CBS. A intenção é adaptar a tributação às características econômicas dessas operações, preservando a lógica de não cumulatividade dentro dos critérios definidos pela própria lei.
Quais operações entram no regime específico?
O artigo 182 apresenta uma relação ampla de serviços financeiros. Entre eles estão:
- operações de crédito, como empréstimos, financiamentos, adiantamentos, descontos de títulos e prestação de garantias;
- operações de câmbio;
- operações com títulos e valores mobiliários, incluindo negociação, custódia, corretagem e distribuição;
- securitização e faturização;
- arrendamento mercantil;
- administração de consórcios;
- gestão e administração de recursos;
- arranjos e instituições de pagamento;
- seguros, resseguros, previdência complementar e capitalização;
- intermediação de serviços financeiros.
O enquadramento depende da operação, e não apenas do nome ou da atividade principal da empresa. A própria legislação alcança, em situações determinadas, serviços financeiros prestados por entidades que não sejam instituições financeiras.
Nem toda receita de uma instituição financeira seguirá o mesmo regime
Um dos pontos mais importantes é evitar a classificação automática de toda receita do setor como serviço financeiro. A LC nº 214/2025 estabelece que serviços prestados por essas entidades que não estejam definidos como financeiros no artigo 182 ficam sujeitos às regras gerais do IBS e da CBS ou, quando aplicável, a outro regime diferenciado.
Isso exigirá segregação mais precisa entre tarifas, comissões, margens financeiras, receitas acessórias e serviços não financeiros. Uma classificação inadequada poderá afetar base de cálculo, alíquota, documento fiscal, declaração e crédito do adquirente.
Como será formada a base de cálculo?
Não existe uma fórmula única para todo o capítulo. Nas operações de crédito, câmbio, títulos, securitização e faturização, a lei parte das receitas e permite deduções específicas. O artigo 192 contempla, conforme a operação e os requisitos legais, itens como despesas de captação, despesas de câmbio, perdas na negociação de títulos e perdas no recebimento ou na cessão de determinados créditos.
Nas operações de crédito remuneradas por margem, a regulamentação e as orientações da Receita Federal também introduzem o conceito operacional do excedente em relação à Selic aplicada ao principal residual. Essa lógica reforça que o novo tributo dependerá de dados contratuais e financeiros que normalmente não estão concentrados em uma única nota fiscal.
As alíquotas do setor financeiro serão iguais às do regime geral?
Não necessariamente. O artigo 189 prevê alíquotas próprias para os serviços financeiros. Entre 2027 e 2033, elas serão fixadas conforme as regras de transição do artigo 233 e serão uniformes em todo o território nacional. A partir de 2034, serão mantidas as alíquotas fixadas para 2033.
A legislação estabelece metodologia voltada à manutenção da carga tributária considerada para o setor durante a transição. Isso não significa que todas as empresas ou operações terão impacto neutro. Mudanças na composição das receitas, nas deduções, nos créditos e no perfil dos clientes podem redistribuir efeitos entre produtos e instituições.
O crédito do cliente passa a depender da qualidade da informação
O artigo 190 estabelece que os créditos de IBS e CBS nas aquisições de serviços financeiros, quando admitidos, serão apropriados com base nas informações prestadas pelos fornecedores à Receita Federal e ao Comitê Gestor do IBS.
Nas operações em que a lei admite crédito, a instituição precisará identificar corretamente o adquirente, a operação e os valores necessários à apropriação. Para clientes empresariais sujeitos ao regime regular, a qualidade desse dado pode influenciar o custo líquido da contratação e até a escolha do fornecedor financeiro.
Assim, cadastro, vínculo contratual, identificação do beneficiário e conciliação de pagamentos deixam de ser apenas controles operacionais. Tornam-se parte da sustentação tributária da cadeia.
DeRE: o novo eixo de conformidade do setor
A Receita Federal informa que a Declaração dos Regimes Específicos — DeRE — está sendo construída para instituições financeiras, planos de assistência à saúde, consórcios, seguros e previdência. O modelo será utilizado para consolidar informações necessárias à apuração dos regimes específicos.
Segundo as perguntas frequentes oficiais da DeRE, a transmissão ocorrerá exclusivamente por API ou Web Service no Ambiente Nacional, sem interface de digitação manual ou programa gerador. Isso transforma a adaptação em um projeto de dados e integração, e não apenas em uma nova obrigação da equipe fiscal.
O que os sistemas precisarão conectar?
- plano de contas e classificação fiscal das receitas;
- contratos e cronogramas financeiros;
- saldos, juros, tarifas, comissões e despesas dedutíveis;
- cadastro e identificação dos adquirentes;
- liquidação financeira e eventos de pagamento;
- perdas, recuperações e renegociações de crédito;
- informações necessárias à geração e conciliação da DeRE.
Contratos antigos exigirão segregação na transição
A Receita Federal esclareceu que valores de contratos de serviços financeiros cujos fatos geradores de PIS e Cofins já tenham sido reconhecidos e tributados por competência até 31 de dezembro de 2026 não devem sofrer nova incidência de CBS quando ocorrer a liquidação financeira.
Para evitar duplicidade econômica, esses valores precisarão ser segregados e informados nos códigos específicos de transição da DeRE. O ponto de atenção é claro: contratos iniciados antes de 2027 podem continuar gerando eventos financeiros no novo sistema e precisam ser rastreados desde a origem.
Onde estão os principais riscos?
Os maiores riscos não estarão apenas no cálculo da alíquota. Eles surgirão na fronteira entre produto, contrato, contabilidade e tecnologia:
- enquadrar como financeiro um serviço sujeito ao regime geral;
- deixar de aplicar ou comprovar uma dedução legal;
- tributar novamente valores já alcançados por PIS e Cofins na transição;
- não identificar o adquirente necessário à geração de crédito;
- divergir entre razão contábil, sistemas de produto e DeRE;
- tratar a nova declaração como relatório manual, sem governança de dados;
- não refletir os efeitos tributários na precificação e na rentabilidade dos produtos.
O que deve ser feito antes de 2027?
- Mapear produtos e receitas: relacionar cada operação aos dispositivos do regime específico ou do regime geral.
- Simular bases e deduções: testar contratos e carteiras reais, sem depender apenas de médias agregadas.
- Identificar dados ausentes: verificar se os sistemas registram adquirente, liquidação, juros, principal, perdas e demais elementos exigidos.
- Conciliar as fontes: aproximar sistemas de produto, contabilidade, documentos fiscais e reporte regulatório.
- Preparar a DeRE: definir arquitetura de integração, responsáveis, validações e trilha de auditoria.
- Revisar contratos e preços: avaliar repasses, créditos, cláusulas tributárias e rentabilidade após a mudança.
Visão TRIBUMETRIA
A Reforma Tributária transforma a tributação dos serviços financeiros em um problema de mensuração e rastreabilidade. A instituição que não conseguir explicar de onde veio cada valor, por que determinada dedução foi aplicada e quem tem direito ao crédito enfrentará dificuldade para sustentar a própria apuração.
O setor não deve aguardar apenas a divulgação das alíquotas. O trabalho mais demorado está no inventário das operações, na qualidade cadastral, na reconciliação de bases e na integração da DeRE. Em 2027, a conformidade financeira dependerá da capacidade de transformar contratos e eventos transacionais em dados tributários verificáveis.
Fontes oficiais consultadas: Lei Complementar nº 214/2025 — texto compilado; Lei Complementar nº 227/2026; Orientações da Reforma Tributária para 2026; e Perguntas frequentes oficiais da DeRE.
Este conteúdo possui caráter informativo. A aplicação das regras depende da natureza da operação, da regulamentação vigente e das características de cada contribuinte.
Conteúdo de caráter informativo. A aplicação de qualquer tratamento tributário depende da operação, da legislação vigente, dos documentos e das particularidades do contribuinte.


